quarta-feira, 16 de maio de 2007

UM PEDIDO A FRIEDRICH


O filósofo louco permeia os meus pensamentos. Meus sonhos todo o tempo. Como uma insistente música ao fundo - aquele forró na casa da visinha. Queria berrar pela janela: desliga essa porra! E o filósofo aumenta o volume. Faria outros loucos, ele sabia.
Sempre fui atormentado por idéias fixas. A maior parte são reminiscências daquele que em mim não passou dos oito anos de idade. Ele ainda sonha com os portais tridimensionais. Adora acreditar na segurança do porão de onde pode ouvir os trovadores cantando sua morte. Ele tem razão, ser daqui é muito chato.
E eis que a verdade me veio aos poucos, em suaves prestações. Foi se instalando disfarçada de aconchego, provocando alguma dor, revelando um universo fascinante. Fascinantemente pertubador. Um verdadeiro 'tapa na pantera'. E quando me dei conta, o meu vagão já estava sendo engolido pelo túnel, adentrando a Caverna do Dragão. Não tive o direito de escolha. Escolha essa que eu não fiz, mas eu já sabia, agora seria, irrevogável. O estômago começa a embrulhar e as frases do filósofo martelando: "O desespero é o preço pago pela autoconciência", "Cada um têm que escolher quanta verdade consegue suportar". Mas eu não pude escolher, repito. Porque travar conhecimento com a verdade é quase como que vender a alma ao diabo. Algo irreparável. A verdade provoca, numa reação em cadeia, outras verdades. E o seu chão se faz areia movediça. Não há como escapar. E digo que não é correto fazer outra pessoa afundar com você. Uma vez que eu não escolhi, dou o direito de escolha ao outro. Algumas pessoas simplesmente jamais suportariam passar para o lado de cá, o da fantasia. Porque a fantasia é mais dolorida, é mais cruel. Viver na fantasia é diferente de viver na mentira. Na mentira vivem os do lado de lá, os do mundo real. A mentira ajuda a manter a sanidade e traz suportes suficientes para que se possa viver bem localizado dentro desse universo. Por isso se torna indispensável na vida dessas pessoas. Doce ilusão. E o filósofo enchendo o saco: "Dever, propriedade, fidelidade, desprendimento, bondade, são soporíferos que induzem a pessoa a um sono tão pesado do qual ela só acorda, se é que acorda, bem no finalzinho da vida. Apenas para descobrir que jamais viveu."
Fez-se então uma calma anormal e repugnante como aquele mau hábito que algumas pessoas têm de cheirar o prato antes de comer. Tenho mania de falar sozinho mas vou esperar o Mestre dos Magos aparecer com seus enigmas que não levam a lugar nenhum e dizer: "Foda-se o portal tridimensional. Eu não quero mais voltar."

Um comentário:

Adriana Vaz disse...

Adorei esse texto. Palavras rebuscadas, coerência... mto bem escrito em geral ;)
Parabens :*